4 de fevereiro de 2016

Drugstore Bukowski Recomenda [Música]: A melhor banda de rock alternativo de todos os tempos


Desde que eu assisti e depois li "Alta Fidelidade", pego-me ocasionalmente fazendo listas "mentais" de Top Five qualquer coisa. Acho que nunca publiquei uma delas, assim como não registro e acabo as modificando com o passar do tempo.

Uma que sempre tento fazer, e sempre a modificando, é a de "cinco melhores bandas de rock alternativo de todos os tempos". É algo difícil de se fazer para quem curte o estilo há muito tempo - apesar de que meu gosto cristalizou e estagnou nas bandas dos anos 90. E nessa lista algumas sempre surgem por eu acreditar serem referência obrigatória do estilo: Pixies, Yo La Tengo, Sonic Youth, Black Rebel Motorcycle Club, Superchunk, etc. Raramente eu lembro do Nada Surf.

Não relacioná-la nas cinco melhores do estilo não significa diminui-la de seu real papel e importância no cenário underground, pelo contrário, pois o rock alternativo teve seu ápice no final dos anos 90, época marcada por uma explosão quase infinta de boas bandas e uma variedade de estilos nunca vistos anteriormente: grunge, alternative, indie, garage rock, post-rock, shoegaze, etc, só para ficar em alguns sub-gêneros.



Nunca procurei ouvir música apenas pelo caráter técnico ou relevância histórica que determinada banda possa ter, mas sempre pelo feeling, pelo prazer auditivo e por diversas nuances e características sonoras que o som da banda possa apresentar.

O Nada Surf foi daquelas bandas que já na primeira audição me pegou. Primeiramente pelas belas melodias: o vocal suave e extremamente afinado de Matthew Caws, os arranjos simples mas poderosos das guitarras, e a bateria enérgica e muito compassada, além de, lógico, ótimas canções. 

Eu devo ter conhecido o som da banda provavelmente a partir de Inside of Love, talvez a mais bela balada do rock alternativo. Quando baixei o álbum Let Go (2002), fui surpreendido por uma avalanche de ótimas músicas em uma sequência formidável. Esse álbum tem um forte apelo pop, músicas assobiáveis, melodias fáceis, e ao mesmo tempo canções fortes e poderosas. Eu logo me questionei como esses caras não chegaram ao mainstream e se tornaram sucesso comercial com o tipo de som que faziam? 

Uma rápida pesquisada na net e descobri que logo após sucesso meteórico do primeiro hit Popular, em 1996, a banda fora sondada por várias gravadoras e chegou a quase assinar com uma major, porém devido as diversas exigências comerciais e que iriam interferir na originalidade e composição da banda, mandaram a gravador à merda! Típica atitude underground do rock alternativo da época, que não tinha nada de esnobação ou afetação, pelo contrário, queriam preservar a originalidade da banda e garantir a qualidade (o que posteriormente conseguiram de forma esplêndida). Basta lembrar o que aconteceu com o Nirvana quando, mesmo sem quererem, acabaram se tornando uma banda  do circuito comercial.

Ou seja, a banda cagou para o mainstream e como consequência acabaram condenados quase ao ostracismo, se não fosse a legião de fãs que conquistaram no decorrer da carreira e, justamente, fãs do alternativo, que odeiam quando sua banda favorita vira mainstream (p. ex., quando uma música de sua banda favorita acaba tocando na trilha sonora de Crepúsculo!).

Ai já começou uma admiração pelas próprias atitudes da banda, sempre preocupados com o seu som, sem se afetar com imagem, comercialização, boas críticas ou não de revistas especializadas. e o que conseguiram foi uma discografia impecável, aliás, poucas bandas conseguiram até hoje manter praticamente a mesma qualidade e excelência em todos os álbuns.

Eis que hoje eu assisto o clip da primeira música do próximo álbum deles, You Know Who You Are, a ser lançado em 04 de março deste ano, e constato a mesma sensação dos álbuns anteriores: lá vem um álbum foda!

Não poderia deixar de citar também que Nada Surf é hoje a banda favorita de eu e minha esposa, no caso, a banda do casal, pois foi embalado ao som deles que começamos a namorar, tendo escolhido Always Love como tema do filme do nosso casamento, assim como dançamos Are You Lightning? no que seria a valsa da festa. 

Enfim, uma banda que marcou diversas épocas da minha vida e agora um relacionamento para uma vida toda, e sendo assim, só poderia ser a melhor banda de rock alternativo de todos os tempos!

26 de maio de 2015

Série Músicas de uma Vida*: "Darklands" - The Jesus and Mary Chain

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O ano era 2009. E o início da música não poderia representar melhor o que estava acontecendo em minha vida:


I'm going to the darklands                  
(Estou indo para as terras escuras)

to talk in rhyme                                    
(para conversar em rimas)

with my chaotic soul                           
(com minha alma caótica)

Havia passado um período conturbado de mudanças, marcado por muita angústia e desilusão. Minha alma estava em pedaços, tentando juntar o que restou. Eis que no fim do túnel parecia haver uma luz, mas não era bem assim que eu a encarava. Surgia uma chance de mudar tudo, de deixar tudo para trás e ir viver algo totalmente novo. E obscuro. Eu não sabia se conseguiria superar tudo em um novo ambiente, longe de minha família e de meus amigos. Mas eu sentia um misto de ansiedade e de muita esperança de que tudo ia ficar bem.

Eu estava indo para "Darklands". Esse era o meu sentimento. E a música do Jesus and Mary Chain tocava em meu coração sem parar. A levada leve e cheia de melodia transmitia uma paz profunda embora a letra fosse angustiante. E era assim que justamente eu estava me sentindo: com uma sensação muito boa de que tudo ia mudar radicalmente, mas no fundo eu sentia muito medo. Medo de que tudo voltasse, que a ansiedade me paralisasse, e pior, longe de tudo e de todos.

Mesmo assim, naquele dia em que peguei o Ford Ka e apenas uma mala (cheia de ilusões, como diria a música dos Mutantes), eu resolvi apenas ir. Deixar que o devir resolvesse meu futuro. E eu queria ficar também, assim como no final da música em que o personagem constata a dubiedade de nossos sentimentos. Partir significa perdas. E possibilidades infinitas. 

Eu era um jovem que fora criado sob a égide de pais protetores e até aquele momento eu dependia quase totalmente deles. E eu precisava sair dali para crescer, maturar e atingir finalmente a minha tão sonhada autonomia. Era algo que eu desejava há muito tempo e não via a hora de isso acontecer. E ali eu não estava conseguindo, não pelos meus pais, mas pela história que eu havia tentado construir e que nos últimos tempos havia se desmanchado. 

"Darklands" marcou brilhantemente essa fase de abandono, fuga e reconstrução de minha vida. E no final o meu destino não se revelou como "as terras escuras", mas sim um lugar iluminado onde encontrei muito acolhimento e novas experiências. De início uma solidão que serviu para amenizar as feridas mais expostas. E depois um encontro que mudou tudo e possibilitou uma nova vida. Mas ai já é história para outra canção tão marcante quanto esta! 


* Esta série de posts abordará músicas que fizeram parte e marcaram períodos ou episódios significativos de minha vida.


8 de outubro de 2014

É hora da mudança!


Quando iniciaram os protestos de junho e julho, a partir do Movimento do Passe Livre, um fato chamou-me a atenção: o apartidarismo declarado dos manifestantes e o repúdio àqueles pertencentes aos partidos de esquerda que tentaram participar do movimento. Era um grupo de maioria classe média e alta, que se diziam indignados com “tudo” o que estava acontecendo por “ai”. Quando questionados sobre os seus propósitos e bandeira de luta, mal conseguiam definir o foco, qualquer coisa era corrupção, roubalheira, de modo geral, uma ode contra os “políticos” que reinam em Brasília. Muitos analistas apontaram que era apenas uma onda e que os únicos que tinham uma causa clara logo caíram fora, no caso o Passe Livre e a “conquista” dos R$ 0,20.


Naquele momento eu já previ que este movimento tinha um outro propósito e serviria logo a interesses mais específicos. A direita, que sempre buscou ocultar suas posições políticas, sempre contou com uma massa de manipulação justamente despolitizada. O pretenso discurso contra a política de modo geral guarda um significado bem delineado: o conservadorismo. Aqueles que dizem odiar a política e condenar qualquer ação desse tipo na verdade gostam de deixar as coisas como estão. Para quem está a um degrau acima na escala social é cômodo permanecer assim, mas incomodam-se muito quando os membros do degrau de baixo ameaçam ocupar o mesmo lugar. É o paradoxo da classe média: vivem a sombra dos membros da elite e tem um pavor de serem alcançados pelos “pobres”.

É o que vem acontecendo há algum tempo no Brasil. Os avanços enormes conquistados com as políticas sociais do ultimo governo incomoda em muito a “velha” classe média e alta. A percepção de que uma grande parcela da população está tendo acesso a bens e serviços que antes eram exclusivos da parcela média e alta, e ainda, por culpa do Governo, é um absurdo para muitos. Ver tantos carros populares zero quilometro nas ruas, dividir poltronas de avião com “essa gente”, e pior, até os cruzeiros marítimos estão tomados pela nova classe “c”, provocou uma onda de indignação.

Benefícios sociais como o Bolsa Família e Auxilio Reclusão são demonizados por aqueles que acreditam “levar o país nas costas” a base de seus impostos e consumo. Esquecem que toda a riqueza do país está nas forças de produção, na mão-de-obra que levanta cedo todos os dias e rega os campos e lavouras, colocam as fábricas em funcionamento e constroem prédios e mais prédios, injetando bilhões na economia. Ignoram o fato que todo dinheiro concedido nos benefícios alimenta o mercado interno e movimenta a economia. Possibilitam o acesso a bens que antes nem seriam vendidos. Alguém acha que celulares venderiam tanto sem o Bolsa Família?

Quando chegaram as eleições foi possível conhecer melhor o que era o “grito por mudanças” de toda essa classe média "sofrida" e ameaçada de perder seu lugar. Uma onda conservadora inundou as Assembleias Legislativas e o Congresso Federal. O Governo do PT mexeu em um vespeiro. Avançou justamente no desenvolvimento social e iniciou o debate sobre uma série de assuntos espinhosos e incômodos para a classe média reacionária: legalização das drogas, aborto, direitos sexuais das minorias e racismo. Quando começaram esses assuntos a surgirem nas pautas logo uma reação conservadora monstruosa despertou das profundezas de nossa pátria. E o que vimos como resultado das eleições foram uma maioria de conservadores eleitos: pastores evangélicos, militares, defensores da família brasileira. Temos agora uma novíssima bancada da “bala” e da “fé” (o que parecia incompatível se une agora de maneira formidável!).

O grito de mudança ficou mais claro. O que eles querem realmente é mudança, mas através do retrocesso. Querem voltar há quarenta anos atrás quando a pequena classe média vivia em paz. Todos os excluídos e renegados da sociedade eram tratados na bala. Não “existia” criminalidade. Os valores cristãos e a tradição estavam garantidos. As velhas oligarquias latifundiárias e os empresários enriqueciam em paz com o apoio dos militares e aceitação passiva de uma população ignorante e miserável. Os comunistas eram uma ameaça, pois comiam criancinhas e eram perversos, devassos e delinquentes. Eram contra a “ordem”.

O povo que quer mudanças tem saudades de uma época que não viveram, mas que ouviram de seus pais e avós que não existiu uma ditadura militar e sim uma época de crescimento e “progresso”. Não compreendem que os conflitos que vivemos hoje são muito mais de classe e de ideologia do que uma pretensa crise econômica devida a politica econômica adotada pelo governo atual.

Quando se questiona a um dos reprodutores do discurso “odeio o PT/fora Dilma” quais o reais motivos de tanto ódio, dificilmente você ouve uma resposta lógica e fundamentada politicamente. São respostas vazias e que reverberam um discurso reacionário da mídia marrom: “sou contra tudo que está ai”, “contra a roubalheira do governo”. Colocam toda a responsabilidade por defasagens históricas e problemas culturais que nos assolam a séculos na figura de uma única mulher: a Presidenta do País. Todos ignoram que o Estado e o Governo são estruturas extremamente complexas. O governo Executivo depende do Legislativo para governar e aprovar os projetos necessários para o país evoluir. Desejam “mudanças” e votam em deputados estaduais e federais mais conservadores possíveis. Entre os mais votados, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro. Tiririca. Candidatos realmente comprometidos com mudanças profundas na sociedade: transformar o país em uma nação fundamentalista cristã (com exceção do Tiririca que ainda não descobriu o que um deputado faz, mas vai na onda...).

E no topo desse conservadorismo está a figura do candidato da “oposição” que conseguiu ir ao segundo turno. No primeiro turno quase sumiu com a rápida assunção nas pesquisas de Marina Silva, a candidata mais incoerente e perdida em suas posições políticas e projeto de governo. Logo se viu que sua inconsistência não daria nem para convencer os despolitizados (ou o chamado “voto volúvel”). Ai surge a figura de Aécio, o playboy salvador da pátria, o novo Collor, o cara que está contra tudo o que está ai. Um potencial de mudança. Mas que mudança? Mudança para trás, ora bolas! Todos os conservadores estão com eles. Estão todos lá, os velhos personagens do passado: latifundiários, megaempresários, banqueiros, militares, pastores e fundamentalistas. Os novos também: toda a massa despolitizada e contra-tudo/contra todos. Basta de corrupção!


O PSDB é o próprio modelo da ética e honestidade. Foi contra o mensalão (e também o criou !). Aécio representa a família brasileira em sua essência. Essa fama de pegador de modelos e aspirador é intriga da oposição! Ele sempre esteve do lado do povo (faz campanha para as socialites e seus poodles em São Paulo). Ele é o cara que vai resolver todos os problemas do Brasil e fazer com que voltemos a ser aquela nação honesta e simples de anos atrás, antes desse governo progressista do PT. Vai acabar com a corrupção e esses Bolsa-Esmolas. Vai, enfim, apoiar a classe média e os livrar dos pobres. 

27 de outubro de 2013

Lou Reed (1942-2013)

"Just a perfect day

you made me forget myself

I thought I was someone else

someone good"


("Perfect Day" - Lou Reed)


Sim, eu já quis ser um deus do rock. Eu já sonhei ser Jonh Lennon, Jimi Hendrix, Jim Morrison e tantos outros. Isso era no início de minha jornada por este mundo fantástico do Rock. E estes eram deuses, e são ainda. Porém nesta viagem, andando por tantas estradas e vias, deparei-me com tantos outros personagens que não eram deuses, nem ao menos talvez grandes estrelas. Eram homens comuns, músicos tocando seu velho e bom rock n' roll e aplicando sua filosofia de vida ao cotidiano.

Foi em uma quebrada dessas que Lou Reed cruzou meu caminho. Eu não sei quando foi isso. Mas o seu impacto foi grande demais. Sua persona e a história no Velvet Underground bastaram para eu criar uma imensa admiração. "Hey babe, take a walk on the wild side". Esta frase, esta simples frase, em uma época que tocar o foda-se era legal ainda, caiu como uma bomba em meus ouvidos. E aquele jeito de cantar, meio que sem querer cantar, sussurrando algumas palavras, sempre poesia. O que era aquilo?

E neste domingo, após saber do nada que este gênio estava morto, veio de repente uma dor estranha, como se tivesse perdido alguém que convivi tão pouco, mas que esperava viver muito ao seu lado. Era você Lou. "Caroline says". Lembrei de muitas noites embriagado, fumando meu cigarro, e ouvindo "Berlin", e principalmente, "Transformer".

E nunca poderei esquecer o impacto de ter assistido "Trainspotting", e a cena em que o personagem principal entra em overdose de heroína, e logo os primeiros acordes de "Perfect Day". O personagem afunda em sua maca, entra em delírio, viaja em todos os sentidos. E sua música, mais profunda e perdida impossível. E minha imaginação desolada com todo aquele horror. Não seria possível criar uma música mais aterrorizante e tranquila ao mesmo tempo para representar uma overdose de heroína. Era você meu herói, relatando algo tão próximo de sua verdade, de sua dor. Transmitindo, traduzindo, para todos, o que era essa porra toda. 

Foi com você e tantos outros junkies, filósofos e imorais que ensinaram-me a ver o outro lado e caminhar por ele, que pude conhecer a verdade sub-oculta, aquilo que os homens só tentam esconder. Como Freud e Nietszche, seu lado selvagem quis lembrar que somos apenas homens, primatas e insatisfeitos, querendo viver e gozar. A cidade é nossa extensão, caminho e meio para a vida. Temos que apenas continuar a explorar, tudo aquilo que há para ser vivido. Há a vida, e principalmente a dor, tudo ao mesmo lugar. 

Perdi um referencial, que muitos não conhecem atualmente e nunca ouviram falar. Mas era o velho Lou, companheiro de muitas noites de solidão e perdição. O cara que leu "On the Road" e fugiu de casa. E seria minha trilha sonora para todas as vezes que quis fugir de casa e não fui. Talvez por que ele já tinha ido. É Lou, você era um dos poucos que apenas faziam eu esquecer de mim mesmo... Vai nessa cara, take a walk on the wild side...

11 de outubro de 2013

[Artigo] A cultura do vinil e o prazer auditivo


Há pouco tempo atrás resolvi investir em um tocador de discos de vinil. Alguns perguntaram-me qual seria a vantagem em voltar a ouvir música neste formato que supostamente seria ultrapassado? Há diversas razões e que vão muito mais além de uma nostalgia ou tentativa de volta ao passado. 

A primeira vantagem, e que muitos alegam, é poder ouvir discos que você tinha guardado em algum armário e que estavam somente "juntando pó". Muitos deles até raros ou difíceis de se encontrar em formato digital. Com certeza essa é uma boa razão. 

Sobre a qualidade sonora, para quem não está familiarizado com o universo audiófilo, há vantagens e desvantagens. O som digital é mais limpo e com poucas imperfeições. Porém no vinil o som parece se expandir, preencher o ambiente. Tem mais profundidade, os graves se sobressaem melhor. É uma experiência sensorial diferenciada.

Mais do que ressaltar as qualidades técnicas, a experiência de ouvir vinil envolve um aspecto emocional que é fascinante. Ouvir discos de outras épocas com os estalidos característicos, o chiado no fim das faixas, é algo fantástico. Você sente-se como estivesse revivendo aquela época. Há nessa experiência subjetiva muito de uma memória afetiva. 

Mas o aspecto principal dessa experiência que eu gostaria de ressaltar é o conjunto do vinil como um todo, o que eu posso chamar de "cultura do vinil". É algo que perdemos nos tempos modernos com a massificação da música provocada pelo formato digital. Hoje temos a disposição infinitas músicas a disposição, basta "baixar" na internet. Isso tem um lado muito positivo que é a possibilidade de conhecer bandas e estilos musicais diversos que anteriormente seria impossível e dispendioso. Só que por outro lado tornamos a experiência de se ouvir música como algo banal e corriqueiro. Ligo meu player no computador no aleatório e disponho de mais de 8 mil músicas. Passo de uma faixa a outra sem me dar conta do que estou ouvindo. Não me interesso mais em saber a história por detrás daquele álbum ou conhecer o artista mais profundamente. Para falar a verdade, eu devo ter pelo menos umas duas mil músicas que baixei e nunca consegui ouvir. Neste caso você não "tem" fisicamente a música. Tudo é virtual.

Com o vinil você vai atrás dos discos. Garimpa-os em sebos e sites especializados. Cada aquisição é comemorada, você obtém o disco fisicamente. Pega-se o álbum, vê-se o encarte e deve seguir um ritual antes da audição. No meu caso, abre-se uma boa cerveja (de preferência uma que eu produzi com meus companheiros cervejeiros -  e cerveja artesanal é outra experiência que vale a pena relatar em outro post), tira-se o disco da capa, o plástico que envolve, se coloca na vitrola, seleciona-se a faixa e a partir dai é viajar nas ondas sonoras...

O fato de você fazer um esforço enorme para achar aquele disco que você tanto curte faz com que você valorize realmente a música que se está "consumindo". É um retorno a uma etapa que se perdeu com o avanço do capitalismo e do consumo de massa. Nos tempos atuais tudo tende a banalizar, a perder as características complexas e profundas. E a "cultura mp3" está fazendo isso com nós. Consumimos música da mesma forma como consumimos junk food: um alimento barato, com uma aparência muito boa, mas pobre em nutrientes. 

Ouvir vinil é como cozinhar em casa. Selecionar os ingredientes, "botar a mão na massa" e ter uma experiência única e subjetiva. É esta experiência que estou atrás novamente, de ter uma relação mais profunda de duradoura com minhas músicas e artistas preferidos. E há ainda a questão da troca, de fazer amizades com quem cultua o mesmo hábito e trocar discos. Trata-se de um hobby que é extremamente prazeroso e gratificante. Uma volta ao passado que é necessária, a fim de manter a experiência auditiva como algo que faz realmente parte de nossas vidas, e não como mais um ato corriqueiro cotidiano qualquer.