8 de outubro de 2014

É hora da mudança!


Quando iniciaram os protestos de junho e julho, a partir do Movimento do Passe Livre, um fato chamou-me a atenção: o apartidarismo declarado dos manifestantes e o repúdio àqueles pertencentes aos partidos de esquerda que tentaram participar do movimento. Era um grupo de maioria classe média e alta, que se diziam indignados com “tudo” o que estava acontecendo por “ai”. Quando questionados sobre os seus propósitos e bandeira de luta, mal conseguiam definir o foco, qualquer coisa era corrupção, roubalheira, de modo geral, uma ode contra os “políticos” que reinam em Brasília. Muitos analistas apontaram que era apenas uma onda e que os únicos que tinham uma causa clara logo caíram fora, no caso o Passe Livre e a “conquista” dos R$ 0,20.


Naquele momento eu já previ que este movimento tinha um outro propósito e serviria logo a interesses mais específicos. A direita, que sempre buscou ocultar suas posições políticas, sempre contou com uma massa de manipulação justamente despolitizada. O pretenso discurso contra a política de modo geral guarda um significado bem delineado: o conservadorismo. Aqueles que dizem odiar a política e condenar qualquer ação desse tipo na verdade gostam de deixar as coisas como estão. Para quem está a um degrau acima na escala social é cômodo permanecer assim, mas incomodam-se muito quando os membros do degrau de baixo ameaçam ocupar o mesmo lugar. É o paradoxo da classe média: vivem a sombra dos membros da elite e tem um pavor de serem alcançados pelos “pobres”.

É o que vem acontecendo há algum tempo no Brasil. Os avanços enormes conquistados com as políticas sociais do ultimo governo incomoda em muito a “velha” classe média e alta. A percepção de que uma grande parcela da população está tendo acesso a bens e serviços que antes eram exclusivos da parcela média e alta, e ainda, por culpa do Governo, é um absurdo para muitos. Ver tantos carros populares zero quilometro nas ruas, dividir poltronas de avião com “essa gente”, e pior, até os cruzeiros marítimos estão tomados pela nova classe “c”, provocou uma onda de indignação.

Benefícios sociais como o Bolsa Família e Auxilio Reclusão são demonizados por aqueles que acreditam “levar o país nas costas” a base de seus impostos e consumo. Esquecem que toda a riqueza do país está nas forças de produção, na mão-de-obra que levanta cedo todos os dias e rega os campos e lavouras, colocam as fábricas em funcionamento e constroem prédios e mais prédios, injetando bilhões na economia. Ignoram o fato que todo dinheiro concedido nos benefícios alimenta o mercado interno e movimenta a economia. Possibilitam o acesso a bens que antes nem seriam vendidos. Alguém acha que celulares venderiam tanto sem o Bolsa Família?

Quando chegaram as eleições foi possível conhecer melhor o que era o “grito por mudanças” de toda essa classe média "sofrida" e ameaçada de perder seu lugar. Uma onda conservadora inundou as Assembleias Legislativas e o Congresso Federal. O Governo do PT mexeu em um vespeiro. Avançou justamente no desenvolvimento social e iniciou o debate sobre uma série de assuntos espinhosos e incômodos para a classe média reacionária: legalização das drogas, aborto, direitos sexuais das minorias e racismo. Quando começaram esses assuntos a surgirem nas pautas logo uma reação conservadora monstruosa despertou das profundezas de nossa pátria. E o que vimos como resultado das eleições foram uma maioria de conservadores eleitos: pastores evangélicos, militares, defensores da família brasileira. Temos agora uma novíssima bancada da “bala” e da “fé” (o que parecia incompatível se une agora de maneira formidável!).

O grito de mudança ficou mais claro. O que eles querem realmente é mudança, mas através do retrocesso. Querem voltar há quarenta anos atrás quando a pequena classe média vivia em paz. Todos os excluídos e renegados da sociedade eram tratados na bala. Não “existia” criminalidade. Os valores cristãos e a tradição estavam garantidos. As velhas oligarquias latifundiárias e os empresários enriqueciam em paz com o apoio dos militares e aceitação passiva de uma população ignorante e miserável. Os comunistas eram uma ameaça, pois comiam criancinhas e eram perversos, devassos e delinquentes. Eram contra a “ordem”.

O povo que quer mudanças tem saudades de uma época que não viveram, mas que ouviram de seus pais e avós que não existiu uma ditadura militar e sim uma época de crescimento e “progresso”. Não compreendem que os conflitos que vivemos hoje são muito mais de classe e de ideologia do que uma pretensa crise econômica devida a politica econômica adotada pelo governo atual.

Quando se questiona a um dos reprodutores do discurso “odeio o PT/fora Dilma” quais o reais motivos de tanto ódio, dificilmente você ouve uma resposta lógica e fundamentada politicamente. São respostas vazias e que reverberam um discurso reacionário da mídia marrom: “sou contra tudo que está ai”, “contra a roubalheira do governo”. Colocam toda a responsabilidade por defasagens históricas e problemas culturais que nos assolam a séculos na figura de uma única mulher: a Presidenta do País. Todos ignoram que o Estado e o Governo são estruturas extremamente complexas. O governo Executivo depende do Legislativo para governar e aprovar os projetos necessários para o país evoluir. Desejam “mudanças” e votam em deputados estaduais e federais mais conservadores possíveis. Entre os mais votados, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro. Tiririca. Candidatos realmente comprometidos com mudanças profundas na sociedade: transformar o país em uma nação fundamentalista cristã (com exceção do Tiririca que ainda não descobriu o que um deputado faz, mas vai na onda...).

E no topo desse conservadorismo está a figura do candidato da “oposição” que conseguiu ir ao segundo turno. No primeiro turno quase sumiu com a rápida assunção nas pesquisas de Marina Silva, a candidata mais incoerente e perdida em suas posições políticas e projeto de governo. Logo se viu que sua inconsistência não daria nem para convencer os despolitizados (ou o chamado “voto volúvel”). Ai surge a figura de Aécio, o playboy salvador da pátria, o novo Collor, o cara que está contra tudo o que está ai. Um potencial de mudança. Mas que mudança? Mudança para trás, ora bolas! Todos os conservadores estão com eles. Estão todos lá, os velhos personagens do passado: latifundiários, megaempresários, banqueiros, militares, pastores e fundamentalistas. Os novos também: toda a massa despolitizada e contra-tudo/contra todos. Basta de corrupção!


O PSDB é o próprio modelo da ética e honestidade. Foi contra o mensalão (e também o criou !). Aécio representa a família brasileira em sua essência. Essa fama de pegador de modelos e aspirador é intriga da oposição! Ele sempre esteve do lado do povo (faz campanha para as socialites e seus poodles em São Paulo). Ele é o cara que vai resolver todos os problemas do Brasil e fazer com que voltemos a ser aquela nação honesta e simples de anos atrás, antes desse governo progressista do PT. Vai acabar com a corrupção e esses Bolsa-Esmolas. Vai, enfim, apoiar a classe média e os livrar dos pobres. 

27 de outubro de 2013

Lou Reed (1942-2013)

"Just a perfect day

you made me forget myself

I thought I was someone else

someone good"


("Perfect Day" - Lou Reed)


Sim, eu já quis ser um deus do rock. Eu já sonhei ser Jonh Lennon, Jimi Hendrix, Jim Morrison e tantos outros. Isso era no início de minha jornada por este mundo fantástico do Rock. E estes eram deuses, e são ainda. Porém nesta viagem, andando por tantas estradas e vias, deparei-me com tantos outros personagens que não eram deuses, nem ao menos talvez grandes estrelas. Eram homens comuns, músicos tocando seu velho e bom rock n' roll e aplicando sua filosofia de vida ao cotidiano.

Foi em uma quebrada dessas que Lou Reed cruzou meu caminho. Eu não sei quando foi isso. Mas o seu impacto foi grande demais. Sua persona e a história no Velvet Underground bastaram para eu criar uma imensa admiração. "Hey babe, take a walk on the wild side". Esta frase, esta simples frase, em uma época que tocar o foda-se era legal ainda, caiu como uma bomba em meus ouvidos. E aquele jeito de cantar, meio que sem querer cantar, sussurrando algumas palavras, sempre poesia. O que era aquilo?

E neste domingo, após saber do nada que este gênio estava morto, veio de repente uma dor estranha, como se tivesse perdido alguém que convivi tão pouco, mas que esperava viver muito ao seu lado. Era você Lou. "Caroline says". Lembrei de muitas noites embriagado, fumando meu cigarro, e ouvindo "Berlin", e principalmente, "Transformer".

E nunca poderei esquecer o impacto de ter assistido "Trainspotting", e a cena em que o personagem principal entra em overdose de heroína, e logo os primeiros acordes de "Perfect Day". O personagem afunda em sua maca, entra em delírio, viaja em todos os sentidos. E sua música, mais profunda e perdida impossível. E minha imaginação desolada com todo aquele horror. Não seria possível criar uma música mais aterrorizante e tranquila ao mesmo tempo para representar uma overdose de heroína. Era você meu herói, relatando algo tão próximo de sua verdade, de sua dor. Transmitindo, traduzindo, para todos, o que era essa porra toda. 

Foi com você e tantos outros junkies, filósofos e imorais que ensinaram-me a ver o outro lado e caminhar por ele, que pude conhecer a verdade sub-oculta, aquilo que os homens só tentam esconder. Como Freud e Nietszche, seu lado selvagem quis lembrar que somos apenas homens, primatas e insatisfeitos, querendo viver e gozar. A cidade é nossa extensão, caminho e meio para a vida. Temos que apenas continuar a explorar, tudo aquilo que há para ser vivido. Há a vida, e principalmente a dor, tudo ao mesmo lugar. 

Perdi um referencial, que muitos não conhecem atualmente e nunca ouviram falar. Mas era o velho Lou, companheiro de muitas noites de solidão e perdição. O cara que leu "On the Road" e fugiu de casa. E seria minha trilha sonora para todas as vezes que quis fugir de casa e não fui. Talvez por que ele já tinha ido. É Lou, você era um dos poucos que apenas faziam eu esquecer de mim mesmo... Vai nessa cara, take a walk on the wild side...

11 de outubro de 2013

[Artigo] A cultura do vinil e o prazer auditivo


Há pouco tempo atrás resolvi investir em um tocador de discos de vinil. Alguns perguntaram-me qual seria a vantagem em voltar a ouvir música neste formato que supostamente seria ultrapassado? Há diversas razões e que vão muito mais além de uma nostalgia ou tentativa de volta ao passado. 

A primeira vantagem, e que muitos alegam, é poder ouvir discos que você tinha guardado em algum armário e que estavam somente "juntando pó". Muitos deles até raros ou difíceis de se encontrar em formato digital. Com certeza essa é uma boa razão. 

Sobre a qualidade sonora, para quem não está familiarizado com o universo audiófilo, há vantagens e desvantagens. O som digital é mais limpo e com poucas imperfeições. Porém no vinil o som parece se expandir, preencher o ambiente. Tem mais profundidade, os graves se sobressaem melhor. É uma experiência sensorial diferenciada.

Mais do que ressaltar as qualidades técnicas, a experiência de ouvir vinil envolve um aspecto emocional que é fascinante. Ouvir discos de outras épocas com os estalidos característicos, o chiado no fim das faixas, é algo fantástico. Você sente-se como estivesse revivendo aquela época. Há nessa experiência subjetiva muito de uma memória afetiva. 

Mas o aspecto principal dessa experiência que eu gostaria de ressaltar é o conjunto do vinil como um todo, o que eu posso chamar de "cultura do vinil". É algo que perdemos nos tempos modernos com a massificação da música provocada pelo formato digital. Hoje temos a disposição infinitas músicas a disposição, basta "baixar" na internet. Isso tem um lado muito positivo que é a possibilidade de conhecer bandas e estilos musicais diversos que anteriormente seria impossível e dispendioso. Só que por outro lado tornamos a experiência de se ouvir música como algo banal e corriqueiro. Ligo meu player no computador no aleatório e disponho de mais de 8 mil músicas. Passo de uma faixa a outra sem me dar conta do que estou ouvindo. Não me interesso mais em saber a história por detrás daquele álbum ou conhecer o artista mais profundamente. Para falar a verdade, eu devo ter pelo menos umas duas mil músicas que baixei e nunca consegui ouvir. Neste caso você não "tem" fisicamente a música. Tudo é virtual.

Com o vinil você vai atrás dos discos. Garimpa-os em sebos e sites especializados. Cada aquisição é comemorada, você obtém o disco fisicamente. Pega-se o álbum, vê-se o encarte e deve seguir um ritual antes da audição. No meu caso, abre-se uma boa cerveja (de preferência uma que eu produzi com meus companheiros cervejeiros -  e cerveja artesanal é outra experiência que vale a pena relatar em outro post), tira-se o disco da capa, o plástico que envolve, se coloca na vitrola, seleciona-se a faixa e a partir dai é viajar nas ondas sonoras...

O fato de você fazer um esforço enorme para achar aquele disco que você tanto curte faz com que você valorize realmente a música que se está "consumindo". É um retorno a uma etapa que se perdeu com o avanço do capitalismo e do consumo de massa. Nos tempos atuais tudo tende a banalizar, a perder as características complexas e profundas. E a "cultura mp3" está fazendo isso com nós. Consumimos música da mesma forma como consumimos junk food: um alimento barato, com uma aparência muito boa, mas pobre em nutrientes. 

Ouvir vinil é como cozinhar em casa. Selecionar os ingredientes, "botar a mão na massa" e ter uma experiência única e subjetiva. É esta experiência que estou atrás novamente, de ter uma relação mais profunda de duradoura com minhas músicas e artistas preferidos. E há ainda a questão da troca, de fazer amizades com quem cultua o mesmo hábito e trocar discos. Trata-se de um hobby que é extremamente prazeroso e gratificante. Uma volta ao passado que é necessária, a fim de manter a experiência auditiva como algo que faz realmente parte de nossas vidas, e não como mais um ato corriqueiro cotidiano qualquer. 

6 de fevereiro de 2013

Drugstore Bukowski Recomenda: [Cinema] "Amor" (2012)


 Quantas vezes nos damos conta de que estamos envelhecendo? De vez ou outra nos deparamos com situações em que pensamos: “puxa, estou ficando velho”, ou, “tal fato foi há tantos anos atrás, como passou rápido!”. Nesses instantes temos a impressão de que o tempo deu saltos e uma outra época encerrou-se sem termos notado. Ao mesmo tempo,  cotidianamente, vamos vivendo o lento passar dos minutos e horas. Talvez somente quando algo significativo ocorre (algum evento marcante, uma data, alguma mudança) ou quando há uma ruptura no fio que tece nossa cotidianidade (o que Schutz chamava de “atitude natural”1) é que tomamos consciência de que o tempo passou e já não somos mais os mesmos de que há algum tempo atrás.

Incluo esta reflexão inicial para falar de um filme que está levando muitos prêmios dos principais festivais mundo afora. “Amor” (Amour), de Michael Heneke, trata de dois temas principais (dentre tantos subtemas que poderia-se destacar): o relacionamento de uma casal de idosos (aparentemente o tema principal) e a chegada da velhice, ou melhor, quando e como chega-se à velhice. No caso do filme, esta percepção vem quando a personagem feminina sofre um AVC (ou seja, uma ruptura e um evento significativo) e toda a rotina do casal muda completamente. A partir desta mudança todo relacionamento é revistado e os anos acumulados de convivência, marcada tanto pela harmonia como por conflitos, pela aceitação do que o outro é e também pela negação e desagrado, tudo soma-se e surge à tona. Trata-se do fio condutor da narrativa e que é magistralmente interpretada pelo casal de atores de forma sublime, pontuada pelos silêncios e ausências, tudo apresentado de maneira minimalista pelo diretor, inclusive a trilha sonora quase inexistente (apenas uma ou outra cena em que surge alguma música clássica).

Mas é do outro tema que quero falar. A chegada da velhice. Quantas pessoas passam pelas nossas vidas de forma vagarosa e tranquila, e quando nos damos conta elas já se foram, seja pela idade que avançou ou por alguma fatalidade. Lembramos então de como elas eram ativas e intensas, e de repente com o passar dos anos vão se calando, perdendo aquela vivacidade, recolhendo-se aos seu canto e já não interagindo como antes. Pode ser uma doença que chega aos poucos - ou um AVC como no filme que de repente “apaga” a pessoa, criando assim uma angústia enorme tanto para a pessoa como para aqueles que vivem ao seu lado. Realmente me parece algo muito triste. De repente aquela pessoa que compartilhava tanto de sua vida contigo, que gerava admiração e prazer, some. É o fim de um tempo, e talvez de uma vida.

Quando pensamos em velhice achamos de maneira positiva que tudo irá acontecer bem, que seremos ainda pessoas ativas e determinadas, que teremos muito para aproveitar e viver. Mas talvez não. Lógico que podemos contribuir agora para uma vivência melhor da velhice, tendo bons hábitos, mantendo rotinas saudáveis de vida. Mas por mais que nos preparemos para isso pode acontecer de sofrermos alguma doença grave que nos desabilite a ter uma vida independente e autônoma, e ai necessitaremos de alguém que nos apoie. E muitas vezes não existirá esta pessoa, seja pelo acaso da vida ou por que não cultivamos amizades e vínculos fortes com as pessoas a nossa volta, e então chega-se ao fim da vida completamente só – como é a realidade de muitos idosos que vemos pelos asilos e albergues por ai.

Refleti sobre isso esta semana ou constatar que eu irritava-me com meu cachorro por ele ficar o tempo todo querendo brincar, enquanto eu tenho que fazer minhas coisas. Mas logo pensei, que daqui há uns 10 anos ou menos ele não virá mais pedir-me para brincar, pois estará velho e cansado, não apresentará mais aquele vigor e animação como agora quando é novo e saudável. 

Parece trágico e exagerado. Mas não é. Quando recebi a densa carga de angústia que “Amor” transmite só pude pensar sobre isso. E como será que vai para mim essa chegada da velhice? E para você, como será? Está preparado (preparando-se?)

Ficha Técnica

Diretor: Michael Haneke
Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William Shimell, Ramón Agirre, Rita Blanco, Carole Franck, Dinara Drukarova, Laurent Capelluto, Jean-Michel Monroc, Suzanne Schmidt, Damien Jouillero, Walid Afkir
Produção: Stefan Arndt, Margaret Ménégoz
Roteiro: Michael Haneke
Fotografia: Darius Khondji
Duração: 127 min.
Ano: 2012
País: França, Alemanha, Áustria
Gênero: Drama

Para quem gosta de: cinema francês; dramas existenciais.
Pontos Altos: interpretação dos atores; narrativa "seca" e direta; tema filosófico.
Pontos Baixos: n/a
Avaliação Drugstore Bukowski: 9,0

Notas
1 Ou seja, somente quando algo se choca ou rompe a nossa atitude natural que paramos para refletir e compreender melhor o que se passou. Caso contrário vamos tocando nossas vidas como sempre, sem se dar muita conta do que está acontecendo.

20 de dezembro de 2011

Drugstore Bukowski Recomenda [Cinema]: "Melancholia" (2011)



Não é todo dia que temos a chance de depararmos com uma obra de arte - aquela no sentido clássico de algo a ser contemplado, repleta de sentidos e significados. Ainda mais nos tempos atuais em que presenciamos cada vez mais uma banalização e empobrecimento da indústria cultural. Vivemos um paradoxo de contar, por um lado, com um excesso de informação e acesso à ela, e, ao mesmo tempo, pouco tempo ou paciência para reflexão e dedicação às coisas belas, profundas e difíceis da vida.
 
São as "consequências da modernidade" como Anthony Giddens havia apontado. O capitalismo e mais precisamente a sociedade da informação nos conduziu ao estado atual em que a velocidade, simplicidade, praticidade e principalmente, a superficialidade nos tornou prisioneiros de uma temporalidade louca, que não comporta outros ritmos e variações.

Toda essa introdução teórica e filosófica para falar do último filme de Lars Von Trier, diretor que já nos brindou com obras de arte modernas (sim, nada desse papo pós-moderno!) como Dançando no Escuro (2000) e Dogville (2003), e agora nos presenteia com um filme lindíssimo que conjuga drama psicológico com  catástrofe natural. 

Esta combinação não é nada simples. Envolve diversos discursos e linhas de condução narrativa-visuais complexas, que tornam o filme de difícil assimilação para a maior parte do público. Quem vai atrás de uma tragédia catastrófica hollywoodiana, nos moldes de "Fim dos Dias" ou "Independence Day "com certeza se decepcionará, pois o filme passa longe desses filmes-clichê, carregados de sensacionalismo e sentimentos comuns.

O filme de divide em duas partes, sendo que a segunda confere sentido à primeira e conserva certa independência, poderia ser um capítulo à parte - ao contrário da primeira parte que força o espectador a segurar sua onda e esperar pela segunda parte. E ai já nos confrontamos com um exercício de lidar com uma outra temporalidade, recurso do diretor que foi compreendido por poucos. Os dez primeiros minutos nos conduzem a cenas belíssimas em uma câmera mais que lenta, como fotografias que vagarosamente pequenas partes se movem. Assim você é conduzido à uma experiência inversa ao que vem sendo feito no cinema atual: filmes carregados de cenas rápidas com ação e narrativas idem. Para àqueles que conseguem se desligar da temporalidade contemporânea por alguns minutos e embarcar nesta viagem visual e sonora (com a abertura da ópera Tristão e Isolda de Richard Wagner) será algo magnífico e que te dará pistas do que está por vir - e que não é nenhuma surpresa, pois o fim já nos é dado de início. E o resto é pura viagem, somente para aqueles que toparem embarcar numa profusão de sentimentos de dor, angústia e desalento.

Fica difícil realmente juntar os simbolismos visuais com toda a filosofia e psicologia por trás do enredo, mas não custa tentar. Além do ritmo lento que nos leva à uma experiência subjetiva semelhante à depressão¹  (e que eu chamei antes de uma vivência de outra temporalidade), há diversas aproximações com o tema. A primeira parte é focada na personagem Justine (interpretada por Kirsten Dunst, em sua mais memorável interpretação) que está se casando e faz de tudo para poder realmente vivenciar essa passagem. Mas o tempo todo ela "escapa" do que está acontecendo. Ora visivelmente triste, ora esquivando-se de todos os rituais cerimoniais, o que fica claro é que ela não consegue encaixar-se no modo "normal" de conduzir a vida: estar se casando com o amor de sua vida, frente à toda sociedade que assiste e espera que o casal tenha filhos e sejam "felizes para sempre"! Há um misto de medo, insegurança mas principalmente um sentimento de não-pertencimento (tipo, "o que estou fazendo aqui" ou  "é isso que realmente escolhi para minha vida?").


Essa primeira parte é incomôda. Nos vemos um pouco ali, naqueles absurdos da vida cotidiana, naquela cena que também já intepretamos algumas vezes no teatro da vida real. Cenas muitas vezes "forçadas", que vivenciamos as vezes apenas para fazer parte do status quo, desse modus operandi como diria Bourdieu. É assim que a personagem melancólica Justine sente-se: querendo estar vivenciando tudo aquilo ali. Além de que nessas passagens que causam constrangimento até para o espectador o diretor faz questão de destilar sua ironia através dos personagens da irmã da noiva e seu marido que foram "os" responsáveis por toda a festa e que justamente representam o ideal de família feliz e bem sucedida, tanto economicamente quanto afetivamente (pelo menos é o que se supõe até a primeira metade do filme).

A metáfora do planeta Melancholia se aproximando da Terra pode levar à diversas interpretações. Vejo por um lado a personagem Justine se esforçando para superar sua depressão e ajustar sua personalidade melancólica ao ritmo e modo de vida modernos enquanto a sombra da melancolia se aproxima novamente. Por outro lado, a forma como ela aceita tranquilamente a catástrofe iminente, enquanto sua obsessiva irmã entra em pânico, demonstra que para o depressivo o terror externo não é nada perto de sua dor psicológica.

O confronto com o fim, com a nossa maior limitação, é algo racionalmente postergado e evitado pela maior parte dos neuróticos. Já para o depressivo o contato com a morte se tornou comum e até desejado. Se para Justine a dor do existir já era imaginariamente uma constante, para Claire (sua irmã), somente a iminência da morte pode realmente confrontá-la com esta terrível e, por que não, bela experiência.

Ficha Técnica

Diretor: Lars von Trier
Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgård, Brady Corbet, Stellan Skarsgård
Roteiro: Lars von Trier
Fotografia: Manuel Alberto Claro
Duração: 136 min.
Ano: 2011
País: Alemanha/ Dinamarca/ França/ Itália/ Suécia
Para quem gosta de: drama psicológico, viagem filosófica, cinema alternativo, psicanálise.
Pontos Altos: fotografia, enredo, interpretação das atrizes, experiência subjetiva.
Pontos Baixos: n/d
Avaliação Drugstore Bukowski: 9,5.

Nota

¹ Não irei entrar aqui na discussão sobre os conceitos e diferenças psicopatológicas entre melancolia e depressão, mas acredito que o filme aborda a questão da depressão em vários de seus aspectos, sendo que o termo "melancholia" pode ser interpretado hoje como "depressão" no sentido que é abordado no filme, porém historicamente e pelo viés psicanalítico há muitas diferenças.