Música, literatura, cinema, teatro, artes e cultura em geral a partir das incursões e viagens do autor. Submerso no espaço cultural, tresloucado na linha imaginária do tempo
Como seria viver totalmente enclausurado dentro de si, tendo como único contato com o mundo exterior somente um dos olhos?
Esta é a singular história que é belíssimamente contada neste filme baseado no livro de memórias (de mesmo título) do francês Jean-Dominique Bauby.
Sempre imaginamos que temos toda uma vida pela frente, que existem inúmeras oportunidades de escolhas e caminhos possíveis. E sempre tendemos a aproveitar um mínimo possível. Pode parecer clichê. E realmente é, pois há muitos filmes que exploram este fato da vida humana: a de que exploramos muito pouco nossa capacidade de viver de diferentes formas e que acabamos por nos conformar com a vida assim como se apresenta da maneira mais fácil a nós. Seja através de livros de auto-ajuda ou do recente sucesso da internet da "Aula Magna" do professor que irá morrer de câncer, este é um tema batido mas que parece aquele tipo de assunto que precisa ser constantemente relembrado para as pessoas pensarem novamente: "como eu não vivo a minha vida plenamente!".
Agora que denunciei o clichê, vamos ao que interessa. Este filme (sobre o livro não posso falar nada) consegue contornar muito bem o clichê e trazer uma visão diferente do assunto. Isso se dá através de uma fotografia e edição perfeitas e uma linguagem poética que fascina desde o início. Os franceses sabem como ninguém lidar com uma história dessa sem cair no pedantismo ou na glorificação da desgraça alheia e exploração sentimental (que o cinema americano tanto abusa). Aliás quase tudo que envolve uma história triste vira manipulação de emoções no cinema atual. Já aqui isto é evitado através do que citei: da forma como a narrativa é conduzida pelo protagonista, de uma maneira extremamente realista, o que parece passar o ponto de vista de quem realmente passou por aquilo, e pelas qualidades técnicas do filme (fotografia lindissima; a trilha sonora complementa muito bem as imagens sem tentar "induzir" emoções; atuações magníficas dos atores).
O filme já começa com um "mergulho" na alma do protagonista e digo que esta experiência chega a ser sufocante. Isto se dá através da utilização da visão do protagonista através das câmeras, demonstrando ao espectador como seria enxergar o mundo como ele. Isto é genial. Não é nada fácil se passar pelo outro e tentar viver sua experiência subjetiva como se fosse a tua realidade. Só por este feito o filme vale a pena, isso para quem está disposto a fugir da tendência atual a se evitar todo e qualquer sofrimento. Este filme é só para aqueles que toparem a encomôda viagem ao mundo estagnante do personagem.
Altamente reflexivo e poético, a história nos conduz a um dilema que dificilmente conseguiriámos imaginar e uma posição igualmente complicada de se colocar: como é viver sem movimento algum? Como seria depender totalmente de outras pessoas para fazer as tarefas mais básicas? E pior, ver a vida (dos outros, diga-se de passagem) passar como um filme infinito, visto com o mínimo de ângulo possível? Utilizando-se de uma metáfora pobre, seria como se olhassemos pela fechadura de uma porta a vida acontecer. Só que isso seria assim até o fim.
Ficha Técnica
Título: "O Escafandro e a Borboleta"(Le Scaphandre et le Papillon, França/EUA, 2007). Gênero: Drama Duração: 112 minutos Direção: Julian Schnabel Roteiro: Ronald Harwood, baseado em livro de Jean-Dominique Bauby Produção: Kathleen Kennedy e Jon Kilik Elenco: Mathieu Amalric (Jean-Dominique Bauby), Emmanuelle Seigner (Céline Desmoulins), Marie-Josée Croze (Henriette Durand), Anne Consigny (Claude), Patrick Chesnais (Dr. Lepage), Niels Arestrup (Roussin), Olatz Lopez Garmendia (Marie Lopez), Jean-Pierre Cassel (Lucien / Vendeur Lourdes), Marina Hands (Joséphine), Max von Sydow(Papinou), Isaach De Bankolé (Laurent), Emma de Caunes (Imperatriz Eugénie), Jean-Philippe Écoffrey (Dr. Mercier), Nicolas Le Riche (Nijinski), Lenny Kravitz (Lenny Kravitz), Michael Wincott (Michael Wincott). Para quem gosta de: filmes introspectivos, dramas pessoais. Pontos Altos: fotografia; roteiro; narrativa em primeira pessoa; atuações dos atores. Pontos Baixos: não encontrei algum. Avaliação: 9,0
Mesmo depois de dez anos de "fã" do Radiohead, o quinteto de Oxford continua me surpreendendo. E me inspirando. Não trata-se do "In Rainbows", último disco dos caras que não deixou de me fascinar (principalmente o disco II, da caixinha que já é a minha relíquia).
Hoje eu já estava indo dormir e resolvi dar uma última "fuçada" no Orkut. E na comunidade "Radiohead Brasil" encontrei a dica de um texto de "O Globo" em que um jornalista, num tom extremamente emocionado relata um show que assistiu do Radiohead em Paris. O tom exagerado só vale para não-fãs, por que quem conhece a acompanha a banda, como é o meu caso, entende muito bem a profusão de sentimentos que Thom Yorke e Cia. consegue provocar.
No fim da reportagem encontro um video do Youtube com uma versão ao vivo de "How to Disappear Completely", e novamente esta música consegue me tocar, e de uma forma diferente. trata-se da melhor versão ao vivo que já ouvi da música (uma apresentação ao vivo da banda gravada em Paris pelo Canal+).
Já ouvi muito essa música, ela fez parte de muitos momentos de minha vida. Repleta de angústia, de um sentimento de perdição, de entrega ao obscuro, de uma ida ao inferno. Parece que a voz de Thom Yorke vagueia pelos meandros mais perdidos de sua alma procurando refúgio, um lugar seguro. E só encontra a ausência. Encontra o nada. "Eu não estou aqui, isto não está acontecendo". É um pesadelo, um encontro inevitável com o Real.
Uma vez li em algum site que a música teria sido composta após um pesadelo que Thom teve e, ao acordar sobressaltado, resolveu escrever. É o que parece mesmo, uma viagem ao inconsciente, desalodora e infinita.
O começo com um violão quase repetitivo, calmo e cadente, e logo um teclado que inicia baixo e sinistro, que vai crescendo conforme a melodia se desenvolve. De repente surge um arranjo (acho que e guitarra) que se repete em um espaço de tempo determinado que confere um clima assustador - e que faz com que o ouvinte espere que se repita novamente. Tudo muito estranho, inquietante e avassalador. Quem não é acostumado com o estilo do Radiohead facilmente rotula como uma canção "depressiva", angustiante. E é, mas muito mais do que isso. É inominável os sentimentos que são trazidos à tona por esta música.
É um caminho rumo ao inferno, mas é um caminho necessário. É o mergulho rumo ao interior de si, algo que poucos se arriscam nos dias atuais. Em uma época em que tudo o que represente dor e profundidade são afastados viemente, evitados e abnegados para uma falsa felicidade buscada a qualquer momento e qualquer custo, uma viagem tão contudente é simplesmente taxada de "deprimente".
"How to Disappear Completely" leva a um contato muito íntimo com aquilo que talvez mais te encomode: aos seus sentimentos mais pertubadores e intrincados, ao encontro com a parte de si que se postulou evitá-la, e que nunca deixará de emergir, só que de outras formas mais distorcidas.
"Se alguma vez você pensou por que nasceu em uma família como a sua, o melhor é relaxar e agradecer que Burroughs não seja seu sobrenome".
Assim é a chamada para o filme que está na programação da HBO neste mês e que eu assisti esses dias. Trata-se de uma história real do jovem Augusten Burroughs, contada em um livro auto-biográfico com o mesmo título do filme.
A história se passa nos anos 70, Augusten (interpretado pelo novato Joseph Cross, que fez algumas aparições em "Smallville" e "Third Watch") é um adolescente homossexual cujo pai é um professor alcóolatra (Alec Baldwin, em uma interpretação consistente) e a mãe uma escritora frustrada que caminha para a loucura (interpretada magisltralmente pela ótima Anette Bening, de "Beleza Americana"). Após se separarem, sua mãe o entrega ao seu psiquiatra, Dr. Finch, um pirado que ao invés de curá-la, parece ter induzido-a ao surto.
Augusten é obrigado então a viver com a excêntrica família do Dr. Finch, pois sua mãe está cada vez mais distante do mundo, e não o quer por perto, assim como seu pai esquece totalmente dele. A família Finch é uma história a parte. Augusten logo se identifica com Natalie, a filha rebelde interpretada pela maravilhosa Evan Rachel Wood (de "Aos Treze"). Moram ainda na casa a catatônica esposa Agnes e a beata Hope (na insonsa interpretação de Gwyneth Paltrow - aquela mesma que "roubou" o Oscar de Fernanda Montegro). Completam o time o esquisitão esquizofrênico Neil Bookman, interpretado muito bem por Joseph Fiennes.
Trata-se de um dramalhão com pitadas de humor negro, razão talvez pelo fracasso nas bilheterias americanas (fato que impediu o lançamento no Brasil no cinema, indo direto para Dvd). Eu não sabia nada do filme, e portanto assisti da melhor forma possível, sem pré-conceitos, e me surpreendi ao ver as críticas negativas em sites de cinema. Embora todas de fãs de cinema e não de críticos realmente - não que eu vá muito com a lata desses críticos. A questão é que é um filme bom, cujo enredo se sustenta no bizarro e no surreal, o que talvez dificultou a apreciação por alguns.
A direção é do estreante Ryan Murphy, que dirigiu alguns capítulos de Nip/Tuck. Quem já assistiu a série pode ter uma idéia de como o diretor lida com a realidade, marcada pelo exagero. Este excesso do filme é justamente o que leva à reflexões, pelo menos para mim. Quem é fã de Tarantino e Almodovar (como eu), dentre outros, diretores que pintam seus filmes com cores fortes, sabe do que estou falando.
Neste filme é a família que surge como tema central. Que influências pode ter a criação e a nossa convivência com nossos pais? Até onde nossas trajetórias não são guiadas pela bagagem que adquirimos no decorrer da infância? São essas questões que aparecem no filme de forma brilhante, através do surreal das relações dos personagens, principalmente entre Augusten e Natalie, os personagens que não se conformam com o meio que vivem (juntamente com o doidão Neil).
Podem parecer bizarras mesmo algumas cenas do filme (como a que Dr. Finch acorda a família para verem seu "cocô", que segundo ele era uma mensagem divina), porém se olhar pelo viés da psicose, muitas cenas tornam-se verossímeis. Quem já teve contato com um psicótico tem noção da tragédia que é a vida dessas pessoas condenadas a não participarem do mesmo mundo simbólico da maioria. Neste contexto, muitas cenas que a primeira vista é para serem engraçadas, são muito tristes. As cenas de humor servem no filme para dar uma "quebrada" no gelo, pois a vida de Augusten não é nada fácil.
Augusten e Natalie parecem questionar: quem poderemos ser vivendo no meio desta loucura toda? Natalie queria fazer faculdade, mas seu pai gastou o dinheiro para pagar dívidas. Sua mãe vive para servir as loucuras do Dr. Finch. Hope também convive com o status quo psicótico, abrindo mão de sua vida e sendo mais uma sombra de Dr. Finch. Neil traz a tona o paradoxo do Pai para a psicose: o ama, assim como quer matá-lo (fato que Dr. Finch parece ter aprendido muito bem com a psicanálise escrota que ele pratica, ao afastar Neil de sua casa, temendo por sua vida).
Neste desfiladeiro de personages vivendo no limite entre a razão e a loucura que o filme se constrói, trazendo a tona os segredos e esconderijos morais que uma família pode guardar. Quem sou eu além do que minha família permitiu que eu fosse? A questão do abandono, tão presente no Brasil, surge ai como um paradigma: Augusten e Natalie buscam a todo custo serem alguém diferente de suas famílias, e isto é possível?
Ficha Técnica
Título: "Correndo com Tesouras" ("Running with Scissors", Eua, 2006) Gênero: Drama Duração: 116 min. Direção: Ryan Murphy
Elenco: Annette Bening (Deirdre Burroughs),Brian Cox (Dr. Finch), Joseph Fiennes (Neil Bookman),Evan Rachel Wood (Natalie Finch), Alec Baldwin (Norman Burroughs), Joseph Cross (Augusten Burroughs), Jill Clayburgh (Agnes Finch), Gwyneth Paltrow (Hope Finch). Roteiro: Ryan Murphy, baseado em livro de Augusten Burroughs
Produção: Dede Gardner, Brad Grey, Matt Kennedy, Ryan Murphy e Brad Pitt
Para quem gostou de: "Os Excêntricos Tenenbaums", "Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas".
Destaques: Anette Bening, Evan Rachel Wood, Brian Cox e Alec Baldwin
Pontos Altos: trilha sonora, atuação dos atores, roteiro, bizarrices, carga emocional.
Pontos Baixos: Gwyneth Paltrow, uma atriz sempre sem sal; a fotografia poderia ser melhor trabalhada.
Com Vida Santos, Patricia Cipriano, Lucas Buchile, Juliana Souza, Vanessa Benke e Rafael di Lara
Local: Teatro Novelas Curitibanas, Rua Presidente Carlos Cavalcantti, 1222 Fone: +55 41 3321-3358.
Única Apresentação dia 05 de Julho às 21H - ENTRADA FRANCA
“A tragédia no palco não me basta mais, vou transportá-la para a minha vida” (Artaud). Vamos, assim, em busca do Teatro Subjétil, onde o corpo não é corpo, o objeto não é objeto, mas corpo e objeto são corpo e objeto. Onde a visibilidade cênica, o elemento da representação, o sujeito e o objeto são, em suma, subjétil...(dARLEI fERNANDES)
Madonna, o hip hop e a heterossexualidade são contrarevolucionários...Porco, puta!
Deparei-me com esta banda em 2007, fuçando o site do Indienation .
O primeiro disco deles, "Carnavas" (2006), foi eleito pelo site como melhor do ano. Não que sites especializados como o indienation sejam referência obrigatória para bandas que realmente interessam, pois num mundo cada vez mais homogeneizado como o atual, tende-se a criar a nova sensação do rock a cada dia.
Mas para a minha surpresa acabei curtindo de cara o som da banda. Pra começar me chamou atenção as influências mais óbvias da banda: Sonic Youth e Smashing Pumpkins, duas das bandas mais criativas dos anos 90, e também duas das minhas prediletas. E não é que o som deles parece justamente a junção destas duas bandas? Se acrescentar um vocal meio andrógino, como do Placebo por exemplo, tem-se o som deles.
Tirando a mistureba que descrevi, vale a pena conferir o som. Guitarras distorcidas na medida, bateria alucinada e a sobreposição dos vocais completando. Além de uma linha de baixo ótima. Além do "Carnavas" de 2006, há o Ep "Pikul" de 2005, muito bom também, porém é no álbum que todas suas facetas são demonstradas.
Silversun Pickups - "Pikul" (2005)
Local: Eua
Pra quem curte: Smashing Pumpkins, Sonic Youth, guitarras distorcidas com melodia.
Destaques: Kissing Families, The Fuzz, All the Go Inbetweens, Sci-fi Lullaby.